Uma das mais inesperadas histórias de sucesso de 2012, a rápida ascensão do álbum
My Head Is an Animal colocou em
evidência a banda islandesa Of Monsters And Men, formada por seis integrantes e
tendo à frente a vocalista Nanna Bryndis.
Embora numa primeira audição a gente
ache o grupo perigosamente próximo do som do Arcade Fire (onde acaba a
homenagem e começa a simples cópia?), aos poucos a beleza das composições vai
ganhando força própria ao mesmo tempo em que as canções parecem hipnotizar.
Recheado
de alegorias, imagens surreais e delicadas orquestrações, My Head Is an animal é um disco para se
amar ou odiar. Aparentemente, a primeira opção tem sido a mais escolhida.
Como tudo na história do Led Zeppelin, este último concerto reunindo os
três membros originais mais o filho do grande John Bonhan, Jason, já virou
mito.
O grupo poderia ter seguido em frente e engrossado a fileira de bandas
que vivem do grande circuito da nostalgia (que aumenta exponencialmente a conta
bancária de bandas como Kiss, Rolling Stones e The Who), mas, graças à recusa
de Robert Plant, restringiu sua tão esperada volta a um único show, realizado
em dezembro de 2007, em
Londres.
O pretexto era homenagear o falecido fundador da
mítica gravadora Atlantic Records, Ahmet Artegun.
Certamente, para a platéia,
isso era o que menos importava. Fico imaginando o delírio de se ouvir, após
tantos anos de ausência, o melhor grupo de rock de todos os tempos tocando ao
vivo seus grandes clássicos como se nunca tivesse parado de fazê-lo.
A química
e a magia permanecem intactas. John Paul Jones e Jimmy Page são irretocáveis e
Jason Bonhan honra dignamente a memória de seu pai (para mim e milhões de
admiradores, o melhor baterista que já pisou neste mundo). Quanto a Robert
Plant, é óbvio que sua voz não é a mesma de sua época áurea, mas ele não
precisava se preocupar tanto. Vê-lo durante mais de duas horas levando canções
eternas como Kashmir, Whole Lotta Love e Black Dog compensa qualquer falha que
o tempo possa ter imprimido a suas cordas vocais. Um registro inestimável.
Uma das características do rock feito na última década é o intenso
intercâmbio entre músicos. Isso gera uma produtividade altíssima e, entre erros
e acertos, discos bastante interessantes.
É o caso deste A Thing Called Divine Fits, do Divine Fits.
O cerne do grupo é formado por Brit Daniel, vocalista e principal compositor do
Spoon, e Dan Boeckner, que já esteve à frente do Hansome Furs e do Wolf Parade.
Juntos eles alternam vocais e a autoria das ótimas canções dessa estréia do
duo. Perfeito para quem curte rock com uma pegada menos óbvia.
O Talking Heads foi uma das melhores bandas americanas surgidas no boom
do pós-punk do final dos anos 1970. Gravaram discos históricos, flertaram com
música africana, caribenha e brasileira, abriram os ouvidos de milhares de fãs
para novas sonoridades e fizeram música vanguardista sem tirar o olho da pista
de dança.
Era de se esperar que, em sua carreira solo, o vocalista David Byrne
levasse adiante essa busca pelo novo e o inesperado. O que aconteceu em parte.
Byrne continua
um ávido pesquisador musical. O que mudou foi o mundo. Hoje em dia, nada mais é
100% novidade neste planeta interligado em que vivemos. O que não impede nosso
aventureiro de buscar proximidade com artistas novos e instigantes.
Love This Giant é fruto de uma colaboração
de verdade. Das 12 canções do disco, 10 foram feitas por Byrne e Annie Clark, a
artista por trás do nome St. Vincent, e as duas restantes são composições
individuais. Curiosamente, o estilo de Clark é o que sobressai. Mas o mix de
duas vozes muito particulares rende momentos inspiradíssimos.
2012 foi um grande ano para os veteranos do rock: Dylan lançou mais um
bom disco, Tempest, o sempre
produtivo Neil Young adicionou mais dois trabalhos à sua longa discografia e a
eterna musa do punk rock, Patti Smith, voltou com suas tradicionais saladas de
poesia e rock em Banga.
Mas, para mim, o
melhor do revival dos dinossauros foi o retorno do lendário Mac Rabennack, mais
conhecido como Dr. John.
Ativo desde a década de 1950, Rabennack tem uma
trajetória acidentada, porém pontuada por discos brilhantes – Gris Gris, de 1968, é frequentemente
apontado como sua obra-prima – e por sua excelência como pianista.
Nascido em New Orleans,
o músico incorpora como poucos o caldeirão sonoro de sua cidade natal e passeia
com desenvoltura por gêneros como funk, soul, jazz e rock.
Locked Down é produzido por Dan Auerback,
guitarrista e vocalista do Black Keys, e faz jus ao rico passado musical de
Rabennack, ao mesmo tempo em que explora novos territórios sonoros. Um disco
que incorpora o novo e o tradicional de maneira preciosa.
O grande trunfo deste grupo do Alabama é, sem dúvida, a voz privilegiada
da cantora Brittany Howard.
Num ano pródigo em novas vozes femininas, Brittany
se impôs com categoria e muito soul em interpretações que renderam comparações
a Janis Joplin. Não é para tanto. Ela canta pra caramba, mas ainda falta a dose
necessária de sofrimento que tornou Janis insubstituível.
De qualquer maneira,
o disco de estréia do Alabama Shakes é uma delícia. O melhor está logo na
abertura: Hold On é uma daquelas músicas que grudam imediatamente no ouvido,
uma amostra do talento do grupo para deglutir as tradições musicais do sul dos
Estados Unidos com alma e paixão.
Na faixa-título, outro destaque, Brittany canta languidamente e prova
que também pode ser sedutora. Longe de ser uma nova obra-prima do rock, Boys And Girls se impõe, no entanto, como
um dos melhores debuts do ano.
Joshua Tillman vem lançando discos com J Tillman há alguns
anos. Entre um trabalho e outro, ele tocou bateria em uma das bandas
independentes mais badaladas da atualidade, o Fleet Foxes, e, sob a nova
alcunha de Father John Misty, soltou este belíssimo Fear Fun.
A verdade é que não importa com qual nome Tillman se
apresenta. Somente sua voz já é motivo suficiente para ficar atento a qualquer
movimento do rapaz.
Mas, pelo demonstrado em Fear Fun
dá para ver que há muito mais que do que apenas uma boa voz para apreciar.
De
2009, quando lançou o bastante elogiado Vacilando
Territory Blues, para cá, Tillman evoluiu significativamente como
intérprete e compositor. Suas letras são o produto das experiências de um músico
jovem em busca de uma voz própria. Há referências a drogas, relacionamentos
desfeitos e mortes na família. Tudo costurado por um fino senso de humor, coisa
cada vez mais rara de se encontrar no rock alternativo, um gênero que se leva
excessivamente a sério.
É possível que Joshua retorne no ano que vem com um
novo nome. Ou simplesmente volte para trás da bateria em outra banda qualquer. Tanto
faz: Fear Fun já deixou sua marca
e pode sem erro ser considerado um dos melhores discos dos últimos tempos.