O grande trunfo deste grupo do Alabama é, sem dúvida, a voz privilegiada
da cantora Brittany Howard.
Num ano pródigo em novas vozes femininas, Brittany
se impôs com categoria e muito soul em interpretações que renderam comparações
a Janis Joplin. Não é para tanto. Ela canta pra caramba, mas ainda falta a dose
necessária de sofrimento que tornou Janis insubstituível.
De qualquer maneira,
o disco de estréia do Alabama Shakes é uma delícia. O melhor está logo na
abertura: Hold On é uma daquelas músicas que grudam imediatamente no ouvido,
uma amostra do talento do grupo para deglutir as tradições musicais do sul dos
Estados Unidos com alma e paixão.
Na faixa-título, outro destaque, Brittany canta languidamente e prova
que também pode ser sedutora. Longe de ser uma nova obra-prima do rock, Boys And Girls se impõe, no entanto, como
um dos melhores debuts do ano.
Joshua Tillman vem lançando discos com J Tillman há alguns
anos. Entre um trabalho e outro, ele tocou bateria em uma das bandas
independentes mais badaladas da atualidade, o Fleet Foxes, e, sob a nova
alcunha de Father John Misty, soltou este belíssimo Fear Fun.
A verdade é que não importa com qual nome Tillman se
apresenta. Somente sua voz já é motivo suficiente para ficar atento a qualquer
movimento do rapaz.
Mas, pelo demonstrado em Fear Fun
dá para ver que há muito mais que do que apenas uma boa voz para apreciar.
De
2009, quando lançou o bastante elogiado Vacilando
Territory Blues, para cá, Tillman evoluiu significativamente como
intérprete e compositor. Suas letras são o produto das experiências de um músico
jovem em busca de uma voz própria. Há referências a drogas, relacionamentos
desfeitos e mortes na família. Tudo costurado por um fino senso de humor, coisa
cada vez mais rara de se encontrar no rock alternativo, um gênero que se leva
excessivamente a sério.
É possível que Joshua retorne no ano que vem com um
novo nome. Ou simplesmente volte para trás da bateria em outra banda qualquer. Tanto
faz: Fear Fun já deixou sua marca
e pode sem erro ser considerado um dos melhores discos dos últimos tempos.
Acho bobagem se falar em arte gay. Ninguém ressalta a
heterossexualidade quando vai falar de um disco, por exemplo, do Allman
Brothers.
Mas não há como negar a identificação entre determinados artistas e a
comunidade gay (outro conceito muito aberto, eu sei).
Tome-se o caso de Liza
Minnelli. Só por ser
filha de Judy Garland, um ícone para gays americanos desde a década de 1940,
Liza já teria o carinho e a simpatia de muita gente.
Mas ela fez seu próprio
caminho artístico, brilhou nas telas e nos palcos da Broadway e gravou discos
que se inscreveram para sempre no imaginário gay.
Results é um marco dos anos 1980 e apresentou Liza para uma
geração de novos fãs. Produzido por Neil Tennant e Chris Lowe, mais conhecidos
como Pet Shop Boys, o disco é um luxo só.
Musicalmente, é um produto típico do
electropop da época (de bandas como Human League, Depeche Mode e os próprios
Pet Shop Boys). O grande diferencial está realmente na voz aveludada e sensual
de LM.
Ela dá novas cores para canções alheias – Twist In My Sobriety de Tanita Tikaran e Rent do Pet Shop –, traz a certeira
dose de melodrama em
Tonight Is Forever
e I Want You Now e aindaperpetra dois clássicos para
as pistas de dança, Losing My Mind
e Love Pains.
Tudo é realmente de
primeira, mas a grande verdade é que qualquer canção vira um deleite nas mãos -
ou cordas vocais – da diva de Cabaré.
Uma pena que ela não tenha seguido
em frente na parceria com músicos e admiradores mais jovens.
Após 16 anos de silêncio, o duo Dead Can Dance retorna com
mais uma de suas viagens sonoras, o belo Anastasis
– grego para ressurreição.
Quem gosta de Cocteau Twins vai
encontrar no Dead Can Dance um primo distante, principalmente pelos vocais
etéreos e misteriosos da cantora Lisa Gerrard.
São apenas oito longas e
exaustivamente trabalhadas canções. Parece pouco para justificar uma ausência
tão grande.
Mas é um típico trabalho com a marca Dead Can Dance, ou seja, há elementos de música
oriental, instrumentos exóticos, vocais que parecem saídos de um passado muito
longínquo e um clima meio gótico perpassando todo o álbum.
Não é para todos,
isso é certo. Quem gosta, contudo, vai vibrar.
Quando uma grande banda resolve se retirar, muita gente fica
inconsolável. Eu, particularmente, acho uma arte para poucos saber o momento
certo de dizer adeus. Melhor se aposentar com dignidade que cair no ridículo.
Deve ter sido o que pensou o R.E.M. quando anunciou sua saída de cena no ano
passado. Os últimos discos do grupo já não eram aquela beleza que um dia foram,
mas eles nunca chegaram a pisar feio na bola.
O melhor do R.E.M. se encontra na
produção dos anos 80, quando gravaram pela independente I.R.S., mas há canções
inesquecíveis em todos os trabalhos subseqüentes.
Os discos a seguir são os
meus cinco preferidos dessa grande banda americana.
1 – Document
(1987): o disco que rompeu a barreira entre o underground e o grande público. Um
clássico absoluto.
2 – Lifes Reach
Pageant (1986): trabalho de transição, com o grupo aprimorando suas
habilidades pop e preparando a grande invasão que viria a seguir.
3 – Automatic For
The People (1992): só por ter Everybody
Hurts este disco já merece lugar de destaque em qualquer coleção. Tão
bom que o próprio grupo teria dificuldade em fazer novamente música com essa
relevância.
4 – Green
(1988): o primeiro disco lançado por uma grande gravadora, é um trabalho que
casa as raízes folk e roqueiras do R.E.M. em grande estilo.
5 – Out Of Time
(1991): é aqui que eles se tornaram realmente gigantes. Culpa de Losing My Religion, uma canção capaz de
tocar em rádios alternativas e nas Antenas Um da vida. A melhor música, no
entanto, é a fantástica Country Feedback,
uma das preferidas do vocalista Michael Stipe.
Gosto muito de Marisa Monte. Mas não pelos motivos pelos
quais a maioria das pessoas gosta.
Não acho que ela seja uma “diva”
e nem mesmo acho que ela pode ser equiparada às grandes vozes femininas de
nossa música.
Para mim o grande encanto de Marisa está justamente em sua
postura anti-diva e, sobretudo, em sua habilidade ímpar de fazer música popular
sem ofender nossa já tão atacada sensibilidade. Principalmente depois que
deixou de emular a Gal Costa da década de
1970, MM passou a fazer
uma música romântica que milagrosamente escapa da breguice.
De certa forma, ela
faz hoje o que Roberto Carlos fazia nos anos 70. É por isso que suas canções
aparecem de forma tão confortável em trilhas sonoras de novelas e em rádios
populares.Seu mais recente disco, O Que Você
Quer Saber de Verdade, é o melhor exemplo disso.
Não à toa, muita
gente achou que MM “embregou” de vez. Não à toa, duas das músicas
enfeitaram cenas românticas em folhetins globais. E não à toa, também, o disco
faz muito sucesso em meu cd player.
O show que o divulga é supimpa, uma beleza
não apenas musical, mas um espetáculo visual belíssimo, em que projeções
iluminam cada canção e que, com certeza, deve render um DVD num futuro próximo.
Se esse é o caminho que Marisa seguirá, é difícil prever.
Depois de tribalismos, sambas e divinas cafonices, só dá para dizer que essa
mulher é um presente dos céus.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Horses
Há 30 anos, a Sony colocava no mercado os primeiros CDs para
venda direta ao consumidor. O objeto de plástico brilhante foi alvo ao longo
desses trinta anos de furiosas reações por parte de puristas, mas acabou se
estabelecendo como a mídia principal de comercialização de música. Em seu período
áureo, o CD chegou à assustadora soma de quase um bilhão de unidades vendidas
em todo o mundo.
Comprei meu primeiro CD player em 1994 e me lembro até hoje
da minha primeira aquisição. Existia aqui em Brasília uma rede de lojas chamada
Cash Box e uma delas ficava bem próxima do meu trabalho.
Foi lá que comprei Horses,
da Patti Smith, Dirty, do Sonic
Youth, Kiss This, do Sex Pistols e
Us, do Peter Gabriel, todos no
mesmo dia. O preço do CD ainda era relativamente alto e os discos de vinil
ainda eram produzidos regularmente. Em pouco menos de um ano, eles,
literalmente, desapareceriam das prateleiras e o CD passaria a ser a única opção
para se ouvir música nova (pelo menos aqui no Brasil. Na Europa e nos Estados
Unidos a produção de vinil nunca foi totalmente abandonada).
É curioso observar
que, nestes trinta anos, o CD cumpriu um ciclo rápido de apogeu e decadência. É
curioso pensar também que o vinil, que muitos deram por morto e enterrado, seja
hoje visto como a única possível salvação para colecionadores e aficionados. O
futuro é incerto, sem dúvida. Não vejo, entretanto, como desaparecer por
completo o meio físico. Sempre existirá gente que necessita do objeto, do
contato físico com a obra. É a mesma sombra que paira sobre o livro de papel,
gradativamente substituído por leitores digitais cada vez mais sofisticados.
O fato é que aqueles quatro discos que inauguram minha coleção
de bolachinhas prateadas continuam passando, vez ou outra, pelo meu aparelho de
som. Acho o mesmo difícil para quem adquire ou baixa um disco digitalmente. Fico
pensando até se essas pessoas se lembram do que ouviram no dia anterior.